O Fim das Fronteiras – A Internet e os Protestos no Egito

Dizer que “não há mais fronteiras no mundo” tornou-se uma espécie de clichê, geralmente utilizado por pessoas impressionadas com a possibilidade de se comunicar, através da internet, com quem está a milhares de quilômetros de distância. Mas somente é aplicável àqueles que residem em países democráticos e com um considerável nível de liberdade de expressão, uma vez que não são poucos os governos que controlam as informações transmitidas pelos provedores instalados em seus territórios, como pude descrever no post “As Redes Sociais nas Ditaduras Atuais”.

Isso nunca incluiu o Egito, mas as coisas mudaram na última semana. Depois de oito dias de protestos contra Hosni Mubarak, há 30 anos no poder e mais de 100 mortes em confrontos entre civis e militares, o governo egípcio instituiu um toque de recolher, bloqueou celulares e limitou o acesso à internet, visando conter as manifestações populares. Caiu ontem o último provedor, deixando o Egito incomunicável.

Ou não.

Diante de tais medidas, Google e Twitter firmaram uma parceria pouco convencional e nada previsível. As duas empresas (e mais a prestadora Saynow, que hoje pertence o Google) disponibilizaram números internacionais, com tarifas grátis, para que as pessoas deixassem recados que seriam automaticamente postados no Twitter (com a hashtag #egypt). Por outro lado, para se chegar aos recados, bastava acessar o site www.twitter.com/speak2tweet ou, na impossibilidade de fazê-lo (por motivos óbvios), discar para os mesmos números e ouvir as postagens. Além de possibilitar a comunicação com quem estava fora do território do país, auxilia nas mobilizações e fornece informações importantes aos manifestantes.

Trata-se de um marco, pois demonstra como as fronteiras geográficas podem ser suprimidas quando a internet está disposta a contribuir para o avanço social.

Por mais que os governos tentem, a cada dia fica mais evidente que a informação não pode ser restringida, menos ainda geograficamente. Evidentemente, as intenções das duas empresas não foram puramente altruístas, já que a decisão colocou-as em destaque. Ainda assim, nunca a expressão “não há mais fronteiras no mundo” foi tão verdadeira quanto agora, servindo a internet para a consolidação da vontade popular e para o desenvolvimento social.

Pelo menos no Egito. Mubarak acaba de anunciar que não disputará mais a reeleição em setembro deste ano. Esperemos os próximos episódios.

POR ANDRE MORAES (@AAFMORAES)

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3 Comentários

Arquivado em Análises, Mundo, Novas, twitter

3 Respostas para “O Fim das Fronteiras – A Internet e os Protestos no Egito

  1. Tiago

    Boa Deco…

  2. Mônica

    Oi, André!

    Independentemente de haver interesse ou altruísmo de empresas e prestadoras, fica evidente que o mundo pode e quer saber em tempo real o que acontece ao seu redor.
    O Brasil poderia aprender, não com baderna, mas com a iniciativa, a protestar, por exemplo, contra o aumento dos salários dos nossos deputados, mas isso é uma outra “novela”…

    Quanto ao protesto no Egito, em setembro sairá – numa tentativa “democrática”- o pai, para a entrada do filho…
    Aguardaremos mesmo, cenas dos próximos capítulos no Brasil, no Egito e no mundo…

    Parabéns pela abordagem do tema!

    Bj

    • André Moraes

      Oi, Mônica.

      É verdade. Cada vez mais a internet tem sido usada como instrumento de mobilização da população. Por isso acho que nossa hora, como brasileiros, vai chegar. Acredito que logo vamos parar de usar a internet apenas para ‘flash mobs’ e coisas com menos importância para dar prioridade ao que realmente importa, como é o caso do aumento dos salários dos parlamentares, que você citou.

      Você é sempre bem-vinda ao blog.

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